A busca da própria vida

A palavra desejo, em sua origem latina, deriva-se do verbo desiderare que, por sua vez, vem do substantivo sidus (no plural, sidera), e significa a figura formada por um conjunto de estrelas, isto é, a constelação. A partir de sidera temos considerare – levar em consideração, examinar com cuidado, respeito e veneração; e desiderare – desistir de olhar (os astros), deixar de ver (os astros).

Essa era a linguagem e a visão dos adivinhos, na antiga Roma, que tentavam interpretar o futuro pelos astros. Assim, na teologia astral, sidera é usado para indicar a influência dos astros no destino humano, ou seja, na astrologia nosso destino está inscrito e escrito nas estrelas, e considerare é consultar os astros para neles encontrar o sentido e o guia de nossas vidas. Ao contrário, desiderare é desistir dessa referência, é abandonar o alto ou ser por ele abandonado. É quando alguém desanima de consultar os astros porque nada do que esperava aconteceu.

A modernidade desatou os laços que prendiam o desejo à astrologia. Assim, quando o homem deixa de olhar os astros em busca de orientação para sua vida, desiderare passa a ser a decisão de tomarmos o destino de nossas vidas em nossas próprias mãos. Desiderare passa a se referir ao desejo humano como uma busca que depende do próprio homem e não mais determinada pelos astros.

Desejar e identificar nossos desejos são os primeiros passos para nos constituir como sujeitos e sentirmos que somos alguém. Desejar é se movimentar em busca do que se quer ser. Sabemos, porém, que não é possível ser tudo o que gostaríamos. E, portanto, desejar é, também, ter a certeza da incompletude, é reconhecer que não seremos tudo o que desejamos. Daí, adeus tarô, búzios,

I Ching, cartomante, ilusões que “supostamente” prometem realizar tudo o que queremos.

O desejo é essa ambiguidade, essa oscilação de significados entre decisão e carência. É também como ausência, carência, privação e falta que o desejo é considerado na psicanálise. O homem, desde sempre, deseja restabelecer uma suposta situação primeira de satisfação.

A mola da busca é o desejo, que pode ser consciente ou inconsciente. Desejo de realizar um sonho, como o sonho profissional de ser médico, artista etc.; de lidar com algum atributo psicológico como, por exemplo, ser menos agressivo. Quem garante, porém, que tudo sairá conforme planejamos? Por isso toda busca é uma procura que não sabemos muito bem o que vamos encontrar, mas, mesmo assim, desejamos buscar. Portanto, somos perseguidores de buscas pelos caminhos do mistério, do estranhamento que podem ora nos satisfazer e ora nos decepcionar. O mais importante é não parar de buscar.


Jassanan Amoroso Dias Pastore

Jassanan Amoroso Dias Pastore

Jassanan Amoroso Dias Pastore é psicanalista clínica desde 1978. Membro efetivo e professora da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Editora da Revista ide, Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), 2005-2008. Organizadora, tradutora e apresentadora da edição brasileira do livro Da neurologia à psicanálise: desenhos e diagramas da mente por Sigmund Freud, Ed. Iluminuras, 2008. Organizadora do livro O psicanalista na comunidade, Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), 2012. Coordenadora dos números na interface com a psicanálise da Revista Ciência & Cultura, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Curadora e participante do programa Bom-Dia Saúde: Mente Humana, da TV Cultura, 2006-2008. Autora de vários capítulos de livros e de artigos de revistas. Autora do livro O trágico: Schopenahuer e Freud, Primavera Ed., 2015. Mestra pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP).

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